O dedo de mais de 1000 reais

Como um dedo inchado terminou custando mais que um plano de saúde mensal. Uma história real de Itapema.

Escrito y actualizado por

4 minutos de lectura·20 de junio 2026
Billetes de 100 reales: el costo real de la salud privada en Itapema

Como começou tudo?

Há umas semanas minha filha chegou com a mão esticada. "Pai, olha, está estranho, está inchado." Era o indicador. Eu sou de outra geração; no meu tempo isso se chamava "unha encravada", falei. "Vai com a sua mãe, que ela tira."

A mãe tirou. E tirou. E continuou tirando. E nada: o dedo seguia igual, ali, inchado, nos encarando.

Com os dias a coisa ficou mais feia, porque agora, além disso, tinha os cortes da suposta unha encravada que nunca existiu. Mas eu, fiel à minha teoria antiga, deixei entrar em jogo outro fator, o mais perigoso de todos: o dinheiro. "Não vou te levar ao hospital agora, por uma unha. Vamos ao público, que ainda por cima estou economizando este mês."

O sistema de saúde pública (SUS)

E fomos. E chegamos. A fila do SUS era tão grande aquele dia, àquela hora da tarde, que nem cadeiras para esperar sobravam. "Vamos voltar para casa. Amanhã te levo ao hospital dia, ao Revitalite. Para algo eu tenho Itapema Saúde, com o médico de emergência a gente resolve."

Saúde privada mas cuidando do bolso

Pois fomos. E sim, tinha médico. Só que o médico de plantão é clínico geral, não dermatologista. Olhou o dedo, decretou "é uma verruga", receitou um líquido sei lá quantas vezes ao dia, e cobrou seus 100 reais. Saímos tranquilos: enfim alguém tinha dado um nome à coisa.

Quando o dinheiro deixa de importar

O gesto de «não»: quando o dinheiro deixa de importar

Com o passar daquele tratamento, o dedo ficou feio. Feio de verdade. Feio até aquele ponto exato em que a gente deixa de olhar o preço.

Estávamos na Clínica La Vie, que tinha horário livre para um especialista. Tipo, agora mesmo: as facilidades das clínicas particulares. A consulta, 375 reais, mais ou menos o que cobra qualquer especialista por aqui.

O dermatologista olhou dez segundos e disse exatamente a palavra que faltava: "É uma verruga viral." Viral. Essa era a palavra. E acrescentou, sem anestesia: "Esse líquido que receitaram, passe o tubo inteiro se quiser, não vai fazer nada. Eu faço outro tratamento. São 600 reais a mais, e se precisar repetir, da próxima vez não cobro."

Isso foi com a minha esposa, na verdade. O médico disse "vamos tratar", e ela, assustada, freou na hora: "Não, não, espera, como assim tratar? isso custa quanto?" E me ligou. E eu, do outro lado do telefone, disse aquela frase que a gente só diz quando já se rendeu: "O dinheiro já não importa. O dedo está feio. Já teremos tempo de economizar."

Cada dia que passa é uma lição de vida

Na minha cidade anterior, Londrina, isso nem sequer teria sido uma história para contar. Eu teria ido ao médico quantas vezes fossem necessárias, sem ter que usar a calculadora. Tinha um plano de saúde de coparticipação, e tudo saía mais barato. Aqui em Itapema isso não existe. Bom, existe, mas com nuances. E as nuances são justamente o que você descobre tarde, com o dedo já feio e a carteira aberta.

Por isso acho que vale a pena sentar, com calma e antes da crise, para estudar como escolher seu plano de saúde. Não é brincadeira. Você tem que entender bem que tipo de pessoa é diante do risco, porque essa decisão não dá para tomar nos momentos de paz: quando a crise chega, as soluções são sempre as menos racionais. Eu sou a prova viva.

Dado curioso para encerrar: esse dedo terminou custando quase 20% a mais do que custa um plano de saúde mensal decente. Um único dedo. Um único mês.

E você? Já sabe o que vai fazer quando for a sua vez?